Alguma deselegância e muita cegueira

Danilo Matoso Macedo

dez.2003

Publicado no portal online Vitruvius em dezembro de 2003

Imagine-se recebendo colegas de trabalho em sua casa, gente que você mal conhece ou com quem tem pouca intimidade. Depois de algum tempo, parte deles começa a criticar abertamente os seus móveis, a arquitetura do lugar, a roupa de sua mãe. Dizem que se sentem incomodados de estar ali. Alguns vão embora. Outros ficam até o final da noite, sempre queixando-se de tudo: da comida, da construção, do ambiente em si… Parece estranho? Pois é mais ou menos por isso que os moradores de Brasília passam a cada leva de funcionários de outras cidades que vão morar na capital.

Quer seja pelo grande número de concursos públicos, quer seja por mudanças de gestão, Brasília tem constantemente parte de sua população acrescida de levas de imigrantes. Há os que gostam e decidem adotá-la como casa e há os que não se adaptam e voltam para sua terra assim que podem. Desses últimos, boa parte sequer esteve disposta a gostar do lugar. É um fenômeno normal, pelo que passa todo centro urbano, mas, em Brasília, os descontentes sentem-se à vontade para manifestar livremente o seu desagrado a quem queira e quem não queira ouvir: aos nascidos na cidade e brasilienses por opção.

E assim um feliz morador da capital é obrigado constantemente a passar pelo constrangimento de ouvir horas de críticas e insultos à cidade de que gosta, podendo optar entre uma defesa, mais ou menos elaborada, ou pelo silêncio até que o assunto morra. Esta tortura, hoje comum, é agravada pela insistente repetição de clichês por parte dos críticos: “Brasília não tem gente na rua”; “em Brasília não se faz nada sem carro, tudo é longe”; “Brasília é muito monumental”; “o clima aqui é muito seco”; “as pessoas aqui são muito estranhas”; “Brasília não tem esquinas”; “os prédios de Brasília são todos iguais”; “Brasilha da fantasia”; etc.

Qualquer cidade tem seus problemas, suas contradições, crises e conflitos, mas os de Brasília inexplicavelmente não mudam com o tempo: foram gravados a ferro quente no imaginário da população brasileira – mesmo aquela que nunca por aqui esteve. É comum e previsível: os chavões da crítica à cidade vêm à tona inevitavelmente ao menor contato com ela, erguem uma barreira que obstrui a visão e endurece os sentidos à percepção da realidade local. A aversão é anterior a qualquer visita à cidade, e muitos não estão dispostos a revertê-la morando ali. Cria-se um paradoxo, pois cidades não são apenas realidades concretas, mas também as que existem no imaginário de seus habitantes, e parte desses já tinha Brasília na mais baixa conta antes mesmo de conhecê-la. Não percebem, mas sua cegueira é parte do problema que condenam: tornam a vida ali menos agradável, não apenas para si mesmos, mas também para os demais habitantes.

As razões para este comportamento são muitas, mas têm claramente raiz comum no pecado original de Brasília: ser uma cidade planejada e construída pela vontade consciente do homem – coisa abertamente condenada por segmentos numerosos da cultura ocidental nos últimos 40 anos.

Brasília foi concebida com um vocabulário próprio da arquitetura e do urbanismo modernos que se praticavam no Brasil desde os anos 30, e que dialogavam em pé de igualdade com a produção da vanguarda mundial. A arquitetura brasileira havia ajudado o movimento moderno mundial a renovar-se no pós-guerra, com o frescor de suas formas novas e a incorporação de elementos simbólicos a um ideário que até então debatia-se entre formalismo puro e racionalismo puro. Mas, paradoxal e inexplicavelmente, Brasília tornou-se o cristo da reviravolta que ajudara a engendrar. Talvez por ter sido a mais ousada realização da arquitetura moderna mundial, a capital sofreu as condenações que eram feitas ao ideário europeu dessa arquitetura, mesmo já estando quilômetros à frente da matriz original: tornou-se o alvo de uma crítica que, na verdade, pouco lhe diz respeito. Lúcio Costa, em seu “Registro de uma vivência”, documenta bem este fenômeno nas defesas da cidade que escreveu desde os anos 60.

Estas críticas da alta cultura mundial ao movimento moderno diluíram-se no imaginário popular e incorporaram-se definitivamente a ele. O ataque de hoje feito por qualquer desavisado é um claro eco das primeiras críticas arquitetônicas elaboradas quando a cidade ainda era um canteiro de obras. Alentado pelas crises nacionais, este eco vem reverberando na imprensa desde então, tornando-se preconceito amplamente difundido.

A maioria esquece-se se de que, mais que um ato de vontade intencional, Brasília é um lugar, uma cidade como outra qualquer, com uma população que ali habita e que ali formou seu imaginário, sua história pessoal, suas lembranças, seus símbolos. Se como objeto criado é passível de críticas, elas não se aplicam em absoluto ao fenômeno urbano: rico, múltiplo, imprevisível. Brasília tem uma vida pulsante, não é um conjunto vazio de paralelepípedos. Ela cresce, tem seus problemas, seus conflitos, tanto como o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife ou Manaus. E não se critica o modo de vida de uma cidade como quem critica uma escultura. Brasília tem um caráter próprio e complexo, mas é criticada apenas em sua intenção original: ser objeto construído. Seus problemas sociais são únicos, mas não são melhores nem piores que os de qualquer centro urbano brasileiro, com suas desigualdades sociais gritantes. Ou acaso a alguém ocorre criticar a belíssima cidade do Rio de Janeiro – o lugar – pela guerrilha urbana ali imposta pelo tráfico de drogas? Em qual cidade grande a classe média vive sem carro? Em qual cidade grande as classes dominantes não se isolam em bolhas sociais excludentes? Por outro lado, quantos centros urbanos gozam da unidade urbana de que Brasília goza?

Poderíamos gastar páginas de comparações aqui, mas a urgência agora é outra: é de abrir os sentidos das pessoas que aqui habitam para os problemas reais da cidade: a “grilagem” institucionalizada de terra; a degeneração da desejável anonimidade original dos edifícios residenciais em volumes recortados, mal construídos e mal implantados que vêm brotando nas asas da cidade; a expansão impensada das cidades-satélites; é a falta compreensão e de respeito com o patrimônio urbanístico que ainda existe aqui e que aos poucos se dilui em ocupações disformes que em pouco diferem das encontradas em bairros novos de qualquer outra cidade. A origem disso? A cegueira, o preconceito e a incompreensão dos valores ali envolvidos: em Brasília, a arquitetura “média” deve ser silenciosa e serena, para ressaltar a monumentalidade necessária dos edifícios institucionais, mas vem “gritando” demais ao sabor do mercado. Esta incompreensão manifesta-se de várias formas e escalas: na deselegância das críticas abertas dos imigrantes aos habitantes antigos; nos pilotis dos edifícios residenciais que vêm sendo fechados com salões de festa – impedindo a circulação livre da população e descaracterizando os prismas puros originais com penduricalhos de gesso e granito -; nos “puxados” das áreas comerciais que invadem despudoradamente e desordenadamente a áreas públicas; na destruição do conjunto que o Palácio da Alvorada formava com o Brasília Palace Hotel…

Um meio de se reverter o quadro? Entendendo-se a cidade como qualquer outra: com seu patrimônio e valores próprios e uma observação atenta da realidade atual. Debatendo-se conceitos e situações reais, e não preconceitos e críticas passadas. A cidade vem mudando, crescendo, desenvolvendo-se, mas as críticas-clichê estão engessadas há quarenta anos. Aos que estão pouco dispostos a colaborar com a melhoria da qualidade de vida na cidade, mas insistem em mudar-se para cá, infernizando os moradores com a falta de tato de suas opiniões fossilizadas, fica o conselho dado por Lúcio Costa a críticos europeus nos anos 60: “Não vale a pena sair de seus cuidados para visitar Brasília se vocês já têm opinião formada e idéias civilizadas preconcebidas. Fiquem onde estão”.

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